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Site Jornal do Brasil - 21 de Fevereiro de 2002
http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/colunas/insite/

Um clássico psicodélico - por Marina Lemle

Psicodelia .mus
Quem ficou curioso de ouvir o rock psicodélico da Spectrum por causa da reportagem no caderno B de quinta-feira passada pode baixar trechos das 12 músicas do disco Geração Bendita, de 1971, no site oficial da banda, spectrum.mus.br. São trechos curtos, mas que revelam o poder musical e poético da banda hippie de Nova Friburgo.

Também é imperdível o trailer do filme É isso aí, bicho, de Carlos Bini, que retrata a vida ''paz e amor'' de uma comunidade alternativa formada pelos próprios músicos. A qualidade da imagem é tão ruim que parece uma alucinação, o que não estaria fora de contexto. Tanto que o locutor avisa: ''você vai fundir a cuca, bicho. Venha curtir uma com a gente''.

O site traz ainda letras de músicas, muitas fotos, cartazes e a história do grupo, que também atuou em outro filme de Bini, Guru das sete cidades, rodado no Piauí.

Só pra lembrar: a Spectrum foi redescoberta pelo colecionador Luiz Antônio Torge, que tem um site de discos brasileiros raros, o ratolaser.hpg.ig.com.br. O disco Geração Bendita será relançado em abril em CD pelo selo alemão Psychedelic Music psychedelic-music.com.

Leia mais sobre rock em www.senhorf.com.br.

 

Jornal do Brasil - 14 de Fevereiro de 2002

Um clássico psicodélico - por Silvio Essinger

Disco gravado em 1971 por uma obscura banda de Friburgo vira cult na Europa, onde colecionadores pagam até US$ 2 mil pelo LP

O que havia restado para o funcionário público aposentado José Luiz Caetano, 49 anos, era apenas uma fita cassete, que ele ouvia em suas viagens de carro pela serra. ''Chorava de alegria e tristeza. Sentia um arrepio ao ver a amplitude do trabalho que tínhamos feito. E tudo se perdera no vento, jogado em alguma prateleira'', diz José Luiz. Na tal fita estavam as músicas do disco Geração bendita, gravado em 1971 com sua banda Spectrum, formada por amigos beatlemaníacos de sua cidade, Nova Friburgo. Sem repercussão alguma em sua época, o trabalho acabou vingando só 30 anos depois, por vias tortíssimas: depois de virar raridade, cult mesmo entre colecionadores europeus, Geração bendita foi relançado em outubro de 2001 em caprichada edição de vinil, numa tiragem limitada, pelo selo alemão Psychedelic Music. Mais: quem quiser comprar um LP original de 1971, em bom estado, tem que desembolsar até US$ 2.000.

Saudado na Alemanha como uma pérola do rock psicodélico sul-americano, o disco relançado vendeu toda a tiragem de 410 cópias em uma semana (outras 40 tiveram que ser guardadas para os clientes da internet). Em abril, Geração ganhará sua primeira edição oficial em CD, também na Alemanha.

''O tempo ficou curto e a cabeça pequena'', diz José Luiz, que, com toda a satisfação, deixou a pacata vida de lado e hoje vive em meio a uma frenética troca de e-mails e telefonemas com representantes de selos fonográficos e colecionadores no exterior. Em 1998, ele estava completamente desanimado, depois de tentar promover uma reunião da banda, que rendeu apenas uma edição caseira do disco em CD. Tudo indicava que se perderiam na memória as músicas, feitas para a trilha sonora do inacreditável Geração bendita, anunciado como ''o primeiro filme hippie brasileiro'', feito em ''uma comunidade hippie autêntica''. Até que um dia o músico foi procurado pelo colecionador Luiz Antônio Torge, que mantém um site com capas de discos brasileiros raros, o Rato Laser (www.ratolaser.hpg.ig.com.br).

Paulada - ''Há uns oito anos, um peruano que mora em Burbank, nos Estados Unidos, me enviou uma lista de discos brasileiros que procurava. No final da lista, havia um tal de Geração bendita, que ninguém conhecia'', diz Torge. Um amigo conseguiu então para ele a obscura bolacha psicodélica. ''Escutei e foi aquela paulada. Ele não perde para nenhum baita disco americano ou europeu do mesmo estilo.'' O colecionador só conseguiu chegar a José Luiz por intermédio do diretor do filme, Carlos Bini, o único nome completo na contracapa do disco original, que fora lançado pelo extinto selo Todamérica, especializado em cantores do rádio.

Logo a descoberta chegou a Thomas Hartlage, do Psychedelic Music (www.psychedelic-music.com), em uma fita enviada por Torge. ''Fiquei tão impressionado com o som e com as composições que passei um ano tentando comprar o LP original. Por fim, consegui uma cópia no Brasil, pela qual paguei US$ 1.500'', diz Hartlage. E a fama de Geração bendita se espalhou. ''Ele é uma jóia da música psicodélica'', elogia Hans Pokora, autor da série de livros Record collector dreams, que compila capas de raridades roqueiras do mundo inteiro. ''Além de ser ótimo, ele é raro também, o que torna a obra ainda mais cultuada'', acrescenta Luiz Antônio Torge. ''E o fato de as músicas não serem covers de bandas da Europa ou Estados Unidos deixa os colecionadores loucos.''

Ouvir os poucos mais de 29 minutos do Geração surpreende qualquer roqueiro, até o mais experimentado. Apesar do som precário (os instrumentos eram de terceira mão e as novas cópias do disco tiveram que ser tiradas de um LP, já que as fitas master desapareceram), trata-se de um excelente disco de rock, com ecos do psicodelismo de Jimi Hendrix, o peso de Cream e Steppenwolf (a grande paixão da banda) e das impecáveis harmonias vocais de Simon & Garfunkel e The Mamas & The Papas. As guitarras falam alto em faixas como Quiabos (nome do sítio onde vivia a comunidade hippie do filme), Pingo é letra e Trilha antiga.

Viola e guitarra - Há também belas baladas, só com as vozes dos integrantes e o acompanhamento de uma viola caipira (substituindo o violão de 12 cordas, inacessível para os garotos), que José Luiz Caetano comprou em 1970 e guarda até hoje. Entre elas, Mary you are, Tema de amor, Mother nature e Maria imaculada. A faixa mais psicodélica mesmo é Concerto do pântano, com a combinação da viola com slide e guitarra com efeito wah-wah. O hino hippie A paz, o amor, você encerra o disco em grande estilo - nada a dever, por exemplo, aos Mutantes de Jardim elétrico.

Produzido por Carl Kohler, dono do Quiabos, o filme Geração bendita era a grande oportunidade que o Spectrum tinha de entrar na mídia. ''Uma história nunca vista no Brasil! Uma geração simples, divertida, humana, bela e inteligente! Você vai fundir a cuca, bicho!'', anunciava o trailer do filme, que originalmente seria um documentário, mas acabou virando ficção com a entrada no projeto do diretor Carlos Bini. ''O filme não é nenhuma obra-prima, mas retrata uma época'', diz hoje José Luiz Caetano. Bondade dele: Geração bendita poderia ser exibido hoje em dia como uma curiosidade trash, com cenas de hippies queimando um aparelho de TV, tocando flauta à beira do rio, queimando fumo e destroçando com fúria um leitão assado.

Com interpretações constrangedoras e um fiapo de roteiro, centrado na história de um burocrata que larga tudo para viver com os hippies que acampam na praça principal de Nova Friburgo, Geração bendita, o filme, tem uma cena antológica, em que todos tomam banho nus num rio, no qual um treslocado vai derramando um balde de tinta para colorir a água. ''Alguns dizem que a minha bunda está ali, mas eu não me vejo'', brinca José Luiz, que jura não ter ido fundo na onda daquela época. ''Minha droga era a música'', assegura.

Big Boy - Proibido a princípio pela Censura, Geração bendita acabou sendo lançado só em 1972, e em poucos cinemas, com o título de É isso aí, bicho!. E nada aconteceu. Frustrados e sem empresário, os músicos do Spectrum se separaram - isso, apesar de terem recebido elogios e uma convocação de um de seus ídolos, o radialista Big Boy, do Baile da pesada. Com nova formação, chegaram a tentar a sorte em boates de Ipanema, numa onda meio Cream. Mais tarde, com a adesão do vocalista (já falecido) Wirley, embarcaram numa onda Led Zeppelin. Nessa, gravaram a trilha de outro filme de Bini, Guru das 7 cidades. Depois acabaram mais uma vez, só que definitivamente.

Com o fim do sonho roqueiro, José Luiz se casou, foi trabalhar como professor de shiatsu e teve dois filhos. Mais tarde, um concurso o levou a ser funcionário público. No meio tempo, cursou dois anos de Direito, que o ajudaram bastante na hora de se meter no complicado trâmite legal para a liberação dos direitos do disco, quando do convite da Psychedelic Music para o relançamento. Foi uma longa peregrinação que envolveu todos os músicos de Geração bendita ainda vivos: o baterista Fernando (que trabalha com informática no Rio) e os guitarristas Sérgio (desenhista da construção civil em Friburgo) e David (pecuarista em Bom Jardim). O baixista do disco, Toby, morreu no começo dos anos 90 num acidente de carro.

''O Geração ainda é um disco atual, em letra e música'', acredita José Luiz, que montou um site do Spectrum (www.spectrum.mus.br) e trabalha agora pelo seu relançamento em CD no Brasil. Ele sonha inclusive fazer um videoclipe, com cenas do Geração que estão em poder de Carl Kohler, hoje recluso e desiludido com o meio cinematográfico. Trinta anos depois, o músico continua no clima paz-e-amor do filme - em sua opinião, o sonho não acabou e os anos 70 sequer começaram. ''O objetivo final do homem tem que ser o humanismo'', prega José Luiz.

 

Foto: Rosane Marinho



O músico José Luiz Caetano que, no começo dos anos 70, tocava com a banda 'Spectrum': os colecionadores de raridades psicodélicas da Alemanha mudaram a vida do aposentado, que vivia amargurado com a falta de reconhecimento de seu trabalho

Site SenhorF (www.senhorf.com.br) - Outubro/2001
Selo alemão relança Spectrum em vinil - por Fernando Rosa

Depois de uma longa negociação entre um selo alemão, a gravadora brasileira, que lançou o disco na época (1971) e os integrantes da banda, está sendo relançado o álbum 'Geração Bendita', do grupo Spectrum, de Nova Friburgo, um dos discos mais raros e importantes da psicodelia nacional.

Lançado em 1971, como trilha sonora do filme homônimo, o álbum é considerado por colecionadores europeus, americanos e japoneses o melhor e mais radical representante da psicodelia do Brasil, ao lado do disco do Módulo Mil, 'Não Fale Com Paredes' - aliás, também reeditado em vinil na Alemanha.

A reedição tem formato vinil 180 gramas, com a capa original, em papel duro, e terá uma tiragem limitada de 450 exemplares, devidamente numerados, seguindo os padrões dos belos álbuns distribuídos pela Psychdelic Music, que patrocinou o relançamento do álbum.

Agora, o guitarrista Caetano, que comandou, em nome da banda, as negociações para reedição do álbum, está também empenhado em relançar o CD no Brasil, em versão CD, para o que já estão sendo encaminhadas negociações com a detentora original dos direitos, a gravadora TODAMERICA, e outros selos interessados.

Os contatos iniciais entre a banda e o selo alemão foram patrocinados pelos sites RatoLaser e Senhor F, que divulgaram o álbum, chamando a atenção sobre sua existência e também para a possibilidade de reedição, no Brasil e/ou no exterior.

Senhor F - A Revista do Rock
Copyright@Fernando Rosa

 

Revista Show Bizz - novembro de 2000
"O País dos Baurets" - por Fernando Rosa

Geração Bendita
O primeiro filme hippie brasileiro teve um trilha sonora a caráter

Por Fernando Rosa

Era 1971, dois anos depois de Woodstock, e a juventude brasileira ainda vivia os efeitos da Era de Aquarius. Em meio à onda, um grupo de jovens músicos e cineastas de Nova Friburgo (interior do Rio de Janeiro), mergulhou fundo na produção do que se chamou na ocasião de "o primeiro filme hippie brasileiro". Intitulado Geração Bendita e dirigido por Carlos Bini, a trama deixou registrada, além das imagens de uma época, uma trilha sonora tão surpreendente quanto rara, assinada pelo grupo Spectrum. Com seus integrantes tendo 21 anos em média, a experiência da banda resumia-se à cena local, onde iniciaram tocando covers de Beatles "tão bem feitas que chegavam, por vezes, a achar que o som era de rádio ou de gravador", diz o guitarrista Caetano.

O álbum, com pouco mais de meia hora de duração, reúne 12 canções, a maioria falando de paz, amor, liberdade, natureza e outros temas e valores expressivos do período. O instrumental, com profusão de fuzz-guitar e vocais à Beatles, situava o trabalho acima do padrão nacional da época. "Não tínhamos recursos técnicos, os instrumentos eram nacionais, de segunda mão, mas havia uma coisa maior que nos movia, que era o sentimento daquela geração", conta Caetano. Tanto ele quanto outros integrantes da banda ainda moram em Nova Friburgo e partilham a memória daqueles "momentos mágicos, coloridos e intensamente vividos". Apesar de ignorado em sua época, hoje o álbum ocupa os primeiros lugares nas want lists (procurados) de colecionadores mundiais de raridades psicodélicas (é um dos LPs do livro 2001 Record Collector Dreams, editado pelo austríaco Hans Pokora, que reúne capas de discos obscuros de todo o mundo). Um interesse que, recentemente, chamou a atenção de selos estrangeiros especializados em reedições em vinil e mesmo em CD, que buscaram contato com a banda para relançar o álbum. Assunto que vem sendo tratado com o selo original e detentor dos direitos de edição, podendo resultar também em uma tiragem nacional, que tornará finalmente o disco Geração Bendita acessível aos mortais.

 

 

Jornal O Dia - 27 de novembro de 1970
"Artistas Presos e Cabeças Raspadas"

NITERÓI (Sucursal) - Prendendo artistas, diretores e produtores do filme "Geração Bendita", que mostraria cenas atuais de juventude "hippie", o Delegado de Friburgo, Sr. Nei Richard, impediu a realização da película, que era acompanhada por toda da população local, curiosas ante o realismo e a beleza das cenas rodadas.
Todos os protagonistas do filme, depois de terem as cabeleiras raspadas e a barba escanhoada, além de despojados de suas roupas exóticas, foram postos em liberdade.
O cineasta Carlos Roberto Bini, produtor do filme, afirmou que vai processar criminalmente o delegado por abuso de poder, tendo, inclusive, contratado advogado para iniciar ação imediata, que pleiteará, também, indenização pelos vultosos prejuízos sofridos.
Fãs dos artistas "hippies" reuniram-se diante da delegacia e fizeram protesto coletivo contra a prisão. Alguns, inconformados com a desfiguração fisionômica dos astros e estrelas, chegaram a ameaçar de depredação a delegacia, sendo contidos a muito custo pelos policiais.

Prá frente

O cineasta Carlos Roberto Bini, da nova geração de produtores cinematográficos, apesar de sua pouca idade, já foi laureado no Festival de Filmes de Curta Metragem, conquistando o primeiro lugar. Animado com o feito, partiu para realizações mais avançadas. Decidiu, assim, fazer o filme "Geração Bendita", focalizando tema atualíssimo, qual seja o problema da juventude "hippie".
Para tanto, contratou nove rapazes e três moças, que encarnavam com parfeição os personagens do filme.Escolheu o seu sítio Sans Souci, em Friburgo, para a rodagem das cenas mais audaciosas e reais, que retratavam uma época, o estágio de uma juventude inconformada.
Ouras cenas foram rodadas na Praça Getúlio Vargas, local dos mais movimentados de Nova Friburgo. Ontem, aproveitando-se de uma cena mais audaciosa, onde os artistas apareciam num jipe psicodélico, de cores berrantes e desenhos avançadíssimos, o delegado entrou em cena e bradou:
- Corta! Está todo mundo em cana. Ninguém sai de cena. As representações serão, agora, no xadrez, mas com artistas carecas e todos de banho tomado, asseados e limpos.
Houve protestos e correrias. O povo vaiou, mas as ordens do delegado foram integralmente cumpridas. Os artistas, diretores e produtores foram todos presos e desfigurados da personalidade de "hippies"autênticos.

Indignação

As jovens estrelas do filme todas lindas, de plástica invejável e linhas aerodinâmicas mostraram-se indignadas com a atitude policial. Explicaram que nos Estados Unidos e em outras nações desenvolvidas o tema é focalizado com realismo e seriedade, contribuindo para a solução de um problema existente, palpável, que ninguém pode ignorar.
Disseram que a indústria do cinema nacional vem progredindo a olhos vistos, merecendo elogios de técnicos e produtores estrangeiros, não compreendendo, assim, a atitude do delegado que se mostrou "quadrado, retrógrado e abusou de sua autoridade".

Ação judicial

Por outro lado, o cineasta Carlos Roberto Bini, afirmou que vai processar criminalmente o Delegado Nei Richard, "que abusou de sua autoridade, causando, com seu gesto, grandes prejuízos à sua empresa".
Explicou que já contratara advogado e tomará todas as providências para ser indenizado por perdas e danos.

Delegado explica


NOVA FRIBURGO (O DIA) - O Delegado Amil Nei Richard informou, ontem, à reportagem, que decidiu cortar os cabelos de cerca de vinte "hippies", alguns dos quais de nacionalidade estrangeira, em virtude de a cidade haver-se transformado, com a presença dos estranhos, pois temia que muitos fôssem responsáveis por aliciamento de menores de outros locais. A presença dos cabeludos, segundo o delegado, causou uma série de problemas na cidade e, diante das reclamações, mobilizou uma turma de policiais, e prendeu vários deles. Logo em seguida, convocou os barbeiros para, com suas máquinas, iniciar a "Operação Tosquia".
Muitos deles, preocupados em ficar prêsos, resolveram, por conta própria, cortar os cabelos. O titular da Delegacia, logo depois, liberou todos e deu um prazo de cinco dias aos que ali não residem para abandonar a cidade.

 

"Filme mostra a vida de 'hippies' em Friburgo"

Um a um, os jovens foram chegando aos sítios Quiabo's e Abóbora's, em Friburgo, e acabaram formando a primeira comunidade "hippie" do Brasil. Cultivavam flores e plantavam para colher. Viviam do artesanato, vendido na cidade. Em 1970, os quinze integrantes do grupo quiseram mostrar sua experiência e pensaram em fazer um filme, agora já copiado e pronto para entrar em cartaz. Nome: "Geração Bendita" ou "É Isso Aí, Bicho".

Mas fazer um longa-metragem é um investimento caro. Mesmo usando apenas uma câmara de 35 mm sem "zoom" e tendo por elenco amadores da própria comunidade. A mãe de Carl Kohler, produtor do filme, compreendeu o objetivo do grupo e ofereceu três casas e dois terrenos. O filme - a cores - acabou saindo por 300 mil cruzeiros e Carl precisou colocar à venda os sítios Quiabo's e Abóbora's para poder pagar uma parte das dívidas.

Comunidade

Depois de rodar o mundo, Carlinhos Kohler resolveu, em 68, plantar rosas num sítio em Friburgo. Abriu uma loja de flores, fechou logo depois: achava que não se deviam vender rosas; não eram produto para comércio. Resolveu ir morar no sítio, abriu uma vendinha de roça, onde oferecia produtos da lavoura, "coisas para comer".

Apareceu um amigo que fazia artesanato no Rio, outros foram chegando, distribuindo-se pelas duas casas do sítio, que tem 52 mil metros quadrados. Casas de roça, feitas de pau a pique e telha, sem forro, uma com cinco e outra com dois quartos, a bomba de água do lado de fora, manual. Um rio corta o sítio, a cachoeira fica mais embaixo.

Começaram a trabalhar com couro e cobre, que vendiam na feira de Friburgo. Faziam pequenas exposições, reproduzindo pinturas antigas do Egito e da Grécia, que às vezes demoravam até cinco meses para ficarem prontas. Carlinhos diz que foi a fase mais bonita do sítio.

- Havia muita harmonia, os amigos apareciam para visitar a gente, todo mundo sem "grilos".

O grupo começou a crescer, gente chegando com vontade de começar alguma coisa nova. Um dia, Carlos Bini apareceu na comunidade com uma câmara de filmar. Fizeram alguns filmes experimentais, em 16 mm, documentando coisas que aconteciam no sítio. Carlinhos Kohler tinha alguma experiência teórica de cinema, pensou em fazer um longa-metragem.

- Parti para fazer uma coisa nova. A gente sempre faz aquilo que sente, pode ser melhor ou pior, não importa. Nessa época, estava acontecendo Woodstock, e nós formávamos a única comunidade "hippie" do Brasil.

O objetivo inicial seria comunicar uma realidade por imagens: mostrar ao homem condicionado da cidade que existe uma possibilidade das pessoas optarem pelo natural - plantar, colher e sentir. Primeiro, pensaram em mostrar uma sociedade decadente.

- Mas isso não funcionaria. A sociedade não está decadente, ela sempre foi. Começou a ser a partir do momento em que deixou de ser humana. Preferimos apresentar a tentativa da comunidade.

O grupo gostava de compor e foi assim que saiu a trilha sonora do filme, com 12 músicas. Toby, que vivia no sítio com mulher e filhos, foi o arranjador do grupo. O Quiabo's se transformou em casa de coreografia e cênica. Carlinhos e Bini escreveream o roteiro.

- Bini tinha alguma prática de cinema. O resto era amador. Mas eram pessoas espontâneas e, como o filme pretendia retratar a comunidade, não era preciso ser artista.

Na época, eram doze na comunidade. Pararam com artesanato, fecharam a vendinha, por falta de tempo. Mellinger, 35 anos de cinema, que trabalhou como assistente de Duvivier e com Claude Lelouch, foi diretor de fotografia do filme. E iniciaram os trabalhos.

Filmagens

Começaram a rodar o filme em agosto de 1970, com o material técnico oferecido por uma empresa. No segundo dia, parte do grupo se desligou, ficaram só oito: Caqui, Vitinho, Doady, João e Cristina, Iara, Carlinhos e Bini. O terceiro dia foi bom, todo mundo trabalhando sério, improvisando dentro do roteiro.

O filme conta a história da comunidade que morava no sítio Quiabo's, distante 11 quilômetros de Nova Friburgo, e vivia de artesanato negociando na feira da cidade. O grupo era perseguido pelas insistentes catequeses de um pastor batista. Um advogado frustrado liga-se ao grupo, e sua nova vida entra em conflito com o namoro que mantém com uma moça rica da cidade.

Filmaram na estrada, no sítio e redondezas. Quase no fim do trabalho, o delegado de Friburgo prendeu e mandou raspar a cabeça de todos os atores. Depois de tudo explicado, concluiram o longa-metragem. Fizeram tudo com 11 latas de filme.

- É um milagre. Normalmente, um filme é feito com 25 a 30 latas. E Cr$ 300 mil é baratíssimo para uma produção. O filme ficou bonito, tem uma das melhores fotografias a cores do cinema brasileiro.

O próprio grupo fez a dublagem, sem qualquer experiência. A comunidade já tinha então se dispersado. O filme foi para a censura, sofreu cortes. Foi preciso refilmar sete minutos, reunir o pessoal já disperso e gastar Cr$ 50 mil.

- Para se conseguir alguma coisa sem nada é muito difícil. É preciso contar simplesmente com as pessoas. E hoje se usa principalmente dinheiro.

O longa-metragem tem agora 1h25m de duração e foi liberado em janeiro passado depois de dois anos e meio de trabalho. O Quiabo's e o Abóbora's estão à venda, para pagar parte dos empréstimos feitos para a execução do filme.